O novo papel do relato ESG: estratégia, risco e geração de valor

4 maio, 2026

Os relatórios de sustentabilidade deixaram de ser uma etapa final e passaram a integrar a estratégia das empresas.

(por: Carolina Blois da Silva)

Hoje, o relato corporativo evolui para uma visão integrada, conectando sustentabilidade, riscos e geração de valor no longo prazo, impulsionado pela transparência e pelas demandas de investidores e reguladores. 

Nos últimos anos, a agenda de sustentabilidade deixou de ser voluntária e passou a ocupar o centro da estratégia das empresas, tanto listadas quanto de capital fechado, impulsionada pela busca por reputação, transparência e acesso a capital. 

Esse movimento é fortalecido por avanços regulatórios e pela crescente demanda de investidores e stakeholders por informações claras, confiáveis e comparáveis sobre impactos, riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade. 

Hoje, diferentes órgãos vêm estruturando exigências relacionadas à transparência ESG, como a Comissão de Valores Mobiliários (a partir da Resolução CVM nº 193), a Superintendência de Seguros Privados (Circular SUSEP nº 666) e o Banco Central do Brasil (Resolução CMN nº 4.943 e Resolução CMN nº 4.945), reforçando a integração entre sustentabilidade, gestão de riscos e divulgação de informações ao mercado. 

Com a evolução regulatória, reportar informações ESG deixou de ser apenas uma boa prática e passou a ser uma exigência do mercado, de investidores e reguladores. 

No Brasil, esse movimento é reforçado pela Resolução CVM nº 193, que estabelece a adoção dos padrões do ISSB e torna obrigatória, a partir de 2026, a divulgação de informações alinhadas às normas IFRS S1 e IFRS S2. 

Mas afinal, quais são os principais tipos de relatórios de sustentabilidade e para quem eles realmente falam? 

Hoje, os relatórios corporativos com foco em sustentabilidade atendem a diferentes públicos e objetivos, desde investidores, focados em riscos e oportunidades, até sociedade, parceiros e reguladores, que demandam transparência e informações confiáveis. 

Nesse contexto, diferentes tipos de relatórios coexistem de forma complementar, conectando as informações reportadas, sendo eles: 

Relatórios de Sustentabilidade que usam a Global Reporting Initiative (GRI) → norma amplamente utilizada no Brasil e no mundo, que apresenta uma visão abrangente dos impactos econômicos, ambientais e sociais das organizações, com foco na materialidade de impacto, ou seja, nos efeitos das atividades empresariais sobre a sociedade (perspectiva de stakeholders). Esses relatórios são direcionados a um público multistakeholder, incluindo sociedade civil, colaboradores, comunidades, clientes, fornecedores, parceiros, reguladores e investidores. Quando combinada com outros frameworks, a GRI também pode apoiar abordagens alinhadas à dupla materialidade. 

  • Relato Integrado originado no International Integrated Reporting Council (IIRC), hoje sob a IFRS Foundation → conecta estratégia, governança, desempenho financeiro e ESG, com foco na geração de valor no longo prazo. 

Desempenha papel central na conectividade das informações corporativas, integrando demonstrações financeiras e divulgações de sustentabilidade, em linha com a IFRS Foundation e o ISSB, que reforçam essa abordagem como essencial para a qualidade das informações destinadas a investidores. 

  • Padrões SASB / IFRS S1 e S2 → direcionados ao mercado financeiro, orientam a divulgação de riscos e oportunidades de sustentabilidade com foco na materialidade financeira e na tomada de decisão de investidores. 
  • CSRD / EU Taxonomy (empresas brasileiras com atuação na UE) → exigem a divulgação de informações de sustentabilidade com base nos ESRS, com foco em padronização, comparabilidade e dupla materialidade, contemplando impactos (inside-out) e riscos e oportunidades financeiros (outside-in). 

A interoperabilidade entre frameworks de sustentabilidade vem se consolidando como padrão global, refletindo a convergência entre normas antes vistas como concorrentes e hoje complementares. 

A GRI traz a perspectiva de impactos (inside-out), enquanto SASB e IFRS S1 e S2 focam em riscos e oportunidades financeiros (outside-in). O Relato Integrado conecta esses elementos à estratégia e à geração de valor no longo prazo. 

Essa integração permite que as empresas avancem de forma estruturada, aproveitando dados já existentes para atender às exigências regulatórias e às expectativas do mercado. 

Por onde começar? 

  1. Entenda sua materialidade

O primeiro passo para um relato consistente é identificar os temas realmente relevantes para o negócio. 

A dupla materialidade considera duas dimensões: os impactos econômicos, ambientais e sociais (GRI) e os riscos e oportunidades que afetam o desempenho financeiro (SASB e IFRS S1 e S2). Esse processo envolve análise de contexto, riscos, escuta de stakeholders e integração com a estratégia do negócio. 

  1. Organize seus dados

O time responsável pelo relatório deve atuar de forma antecipada, engajando áreas como financeiro, operações, RH e jurídico para garantir consistência e rastreabilidade dos dados. É recomendável alinhar conceitos e requisitos dos frameworks adotados e estruturar bases de dados com indicadores e critérios claros, essenciais para um reporte consistente e asseguração confiável. 

  1. Integre áreas

Sustentabilidade, financeiro, riscos e estratégia devem atuar de forma integrada, com linguagem, critérios e métricas alinhados, garantindo consistência das informações, qualidade dos dados e conexão entre desempenho financeiro e ESG.

4. Comece com frameworkse/ou standards já consolidados no mercado 

Utilize GRI, SASB (quando aplicável) e o Relato Integrado como base para estruturar processos, indicadores e governança, preparando a organização para a adoção das normas IFRS S1 e IFRS S2.

5. Gestão climática

Um passo inicial é estruturar a gestão climática, com a elaboração do inventário de emissões de GEE conforme o GHG Protocol, permitindo quantificar emissões e definir uma linha de base para monitoramento. O inventário apoia metas de redução, atende às exigências de reporte climático (como IFRS S2) e fortalece a gestão de riscos e oportunidades. Para avançar, é importante considerar referências como CDP, SBTi, TCFD (incorporado à IFRS S2) e os cenários do IPCC.

6. Evolua gradualmente

A evolução do relato não precisa ser perfeita, mas deve ser estruturada, consistente e orientada a dados. Com o amadurecimento da gestão, o reporte passa a refletir como o negócio gera valor no longo prazo. Esse valor vai além do financeiro, abrangendo impactos na sociedade, na economia e nas pessoas, fortalecendo decisões mais responsáveis e a resiliência do negócio.

Ao mesmo tempo, investidores demandam informações confiáveis para avaliar riscos e oportunidades, e empresas que alinham seu relato a padrões como IFRS S1 e S2 ampliam sua capacidade de acesso a capital e competitividade.

Referências Bibliográficas e para consulta:

Regulações citadas 

processo-15414609369202121 

Resolução CVM 193  

Normas e estruturas de relato 

GRI – Download the Standards 

IFRS – IFRS S1 General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information 

IFRS – IFRS S2 Climate-related Disclosures 

https://www.ifrs.org/issued-standards/integrated-reporting/ 

IFRS – About 

Home | EFRAG Knowledge Hub 

 Gestão climática 

Standards and guidance – Science Based Targets Initiative 

CDP Disclosure 2026 – CDP 

Task Force on Climate-Related Financial Disclosures | TCFD)

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