Combate à pobreza requer uma economia que sirva à humanidade

6 set, 2021

“A cultura do descarte deve ter os seus dias contados. Ninguém tem o direito de se sentir ‘mais humano do que outro'”, diz o Papa Francisco, que escreveu a encíclica Laudato Si´, sobre o cuidado da casa comum com quem compartilhamos a existência.

Quando se fala em pobreza, muita gente ainda imagina tratar-se apenas da fome (como se já não fosse pouca coisa…), mas vai muito além disso. A pobreza impede o ser humano de desenvolver o seu potencial ao máximo. E de sonhar e ser feliz. De ter uma vida digna. Então estamos falando de fome sim, mas também de saúde e bem-estar, acesso à educação de qualidade, à internet, água potável e saneamento, eletricidade, transporte público, moradia e trabalho decente. O combate à pobreza é a luta contra as desigualdades. Contra a impossibilidade de mobilidade social. Melhorar a vida.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável Nº 1 da ONU aborda a erradicação da pobreza e o Nº 2 trata de fome zero e agricultura sustentável. E segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), 1,3 bilhão de pessoas vivem na pobreza.

Bilionários

O 1% mais rico da população mundial tem a mesma riqueza dos demais 99%. Os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial. Convido você a parar e repetir esses números várias vezes. Absorva-os. Entenda a crueldade deles.

No Brasil, o 1% mais rico fica com quase 30% da renda nacional, e uma trabalhadora que vive de um salário mínimo levaria 19 anos para ganhar o que um superrico recebe em um mês (Dados da Oxfam). São 6.935 dias para ganhar a mesma que coisa que outro fatura em 30 dias.

A pandemia acertou em cheio os que já estavam em extrema vulnerabilidade, e a mudança climática agrava ainda mais a situação. Outro estudo da Oxfam, na região da América Latina e Caribe, divulgado em julho de 2020, mostra que as pessoas muito ricas aumentaram sua fortuna em US$ 48,2 bi enquanto até 52 milhões de pessoas podem cair na pobreza.

Prosperidade humana

“O objetivo é alcançar prosperidade humana numa teia de vida florescente”, afirma a economista Kate Raworth no livro Economia Donut – uma alternativa ao crescimento a qualquer custo. Acho linda essa expressão. O significado de florescer é brotar flores – prosperar – desenvolver – passar a existir (no sentido figurado). É o que 1,3 bilhão de pessoas no mundo desejam: sair da invisibilidade da sociedade, dos governos, dos políticos, das empresas, das comunidades.

Precisamos escalar as soluções para combater a pobreza.

Elaborar um sistema financeiro global que sirva à humanidade.

Precisamos nos reprogramar a pensar no outro, de maneira natural. Criar esse hábito: organicamente eu me lembrar do bem-estar do outro. Ao mesmo tempo em que há um raio-x do planeta muitas vezes sombrio, aumenta o número de vezes em que se ouve as palavras: cuidado, colaboração, diálogo, afeto. Esse é o único caminho. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que permitem a todos uma vida digna, com oportunidades, tendo condições de florescer enquanto ser humano e enfrentarmos untos os desafios ambientais.

“Este sistema, com sua lógica implacável de ganância, está escapando a todo domínio humano. É hora de frear a locomotiva, uma locomotiva descontrolada que está nos levando ao abismo. Ainda estamos em tempo”, conclama o Papa Francisco.

Texto de Giane Gatti

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