A sustentabilidade corporativa deixou de ser uma agenda paralela ao negócio. Hoje, ela influencia decisões sobre gestão de riscos, competitividade, acesso a mercados, relações com investidores, eficiência operacional, inovação, reputação e perenidade.
Os temas ESG — ambientais, sociais e de governança — seguem ganhando relevância diante da intensificação dos eventos climáticos, das exigências por transparência, da evolução de padrões de relato, do escrutínio sobre cadeias de valor e da necessidade de transformar compromissos em resultados mensuráveis.
A pergunta mais importante para as empresas não é se a sustentabilidade continuará em pauta. É: a organização está preparada para integrar essa agenda à sua estratégia, governança, processos e decisões cotidianas?
A seguir, reunimos sete tendências que continuam a demandar atenção de lideranças, conselhos e equipes responsáveis pela agenda ESG.
1. A crise climática é um risco estratégico para o negócio
Os impactos das mudanças climáticas já afetam operações, cadeias de suprimentos, infraestrutura, disponibilidade de recursos naturais, seguros, custos logísticos e relações com comunidades.
Eventos extremos, como secas, chuvas intensas, ondas de calor e alterações nos padrões de produção agrícola, tornam evidente que a agenda climática precisa ser tratada como tema de gestão de riscos e resiliência empresarial — e não apenas como um compromisso ambiental.
Para avançar, as empresas precisam avaliar tanto os riscos físicos quanto os riscos de transição associados às mudanças climáticas. Isso pode envolver:
- Inventário e gestão de emissões de gases de efeito estufa;
- Avaliação de riscos climáticos para operações e cadeia de valor;
- Definição de metas e planos de descarbonização consistentes;
- Estratégias de adaptação e resiliência;
- Integração do clima à gestão de riscos corporativos;
- Engajamento de fornecedores em temas relacionados a energia, emissões e eficiência.
O desafio é traduzir o tema climático em decisões de negócio. Isso exige dados, governança, responsáveis definidos, metas factíveis e capacidade de acompanhar resultados ao longo do tempo.
2. Biodiversidade e natureza entram definitivamente na estratégia empresarial
A biodiversidade tem se consolidado como uma pauta relevante para empresas que dependem de água, solo, polinização, matérias-primas, serviços ecossistêmicos e estabilidade territorial.
A perda de biodiversidade pode gerar riscos operacionais, financeiros, regulatórios e reputacionais. Ao mesmo tempo, iniciativas voltadas à conservação, restauração, bioeconomia e uso responsável dos recursos naturais podem criar oportunidades de inovação e geração de valor compartilhado.
Segundo o Radar de Tendências 2026 do CEBDS, a natureza tende a ganhar espaço como um ativo econômico e estratégico, reforçando a necessidade de empresas compreenderem suas dependências e seus impactos sobre ecossistemas.
Algumas perguntas ajudam a iniciar essa reflexão:
- De quais recursos naturais o negócio depende?
- Quais impactos as operações e a cadeia de valor podem gerar sobre ecossistemas?
- Há riscos relacionados ao uso da terra, à água, ao desmatamento ou à origem de matérias-primas?
- A empresa conhece os territórios e fornecedores mais críticos de sua cadeia?
- Existem oportunidades de contribuir para soluções baseadas na natureza, restauração ou cadeias da sociobiodiversidade?
A agenda de biodiversidade não substitui a agenda climática. As duas são interdependentes e exigem uma visão sistêmica sobre riscos, impactos e oportunidades.
3. Transparência, dados e relato ESG exigem mais consistência
O aumento das expectativas de investidores, clientes, parceiros, reguladores e sociedade vem tornando a transparência uma dimensão central da gestão ESG.
Relatórios de sustentabilidade, relatórios integrados e divulgações alinhadas a referências como GRI, SASB, ISSB e IFRS S1 e S2 podem apoiar empresas a comunicar como identificam, priorizam e gerenciam temas materiais.
No entanto, o relato não deve ser entendido como uma etapa final de comunicação. Ele é consequência de uma estrutura de gestão que precisa envolver:
- Governança e supervisão pela liderança;
- Identificação de riscos, impactos e oportunidades;
- Estratégia e integração ao planejamento corporativo;
- Indicadores, metas e critérios de acompanhamento;
- Qualidade, rastreabilidade e consistência de dados;
- Transparência sobre avanços, desafios e limites.
O principal risco não está em reconhecer que há lacunas. Está em divulgar compromissos amplos sem evidências, metas, responsáveis ou informações que permitam acompanhar sua evolução.
Uma comunicação ESG madura não busca demonstrar perfeição. Ela demonstra coerência entre discurso, processos, decisões e resultados.
4. O combate ao greenwashing amplia a importância da comunicação responsável
A sustentabilidade passou a ocupar um espaço relevante na comunicação corporativa. Ao mesmo tempo, cresceu a expectativa de que empresas sustentem suas mensagens com informações verificáveis e contextualizadas.
Greenwashing ocorre quando declarações, campanhas ou posicionamentos ambientais e sociais criam uma percepção exagerada, incompleta ou enganosa sobre práticas e impactos de uma organização, produto ou serviço.
Para reduzir esse risco, a comunicação deve estar conectada à gestão. Algumas boas práticas incluem:
- Evitar promessas genéricas, como “100% sustentável” ou “impacto zero”, sem contextualização;
- Explicar escopo, metodologia, limites e prazos das metas divulgadas;
- Priorizar informações mensuráveis e verificáveis;
- Comunicar avanços e desafios de forma equilibrada;
- Garantir que áreas técnicas, Jurídico, Compliance, Sustentabilidade e Comunicação atuem de forma integrada;
- Não usar certificações, selos ou compromissos como substitutos de uma estratégia consistente.
Transparência não é apenas divulgar boas notícias. É oferecer elementos para que as partes interessadas compreendam o estágio da jornada, os compromissos assumidos e o que ainda precisa evoluir.
5. Transição energética e descarbonização saem do discurso e entram na operação
A transição energética é uma dimensão importante da resposta empresarial à crise climática. Ela envolve reduzir a dependência de fontes intensivas em carbono, ampliar eficiência energética e avaliar alternativas compatíveis com a realidade de cada setor.
Esse movimento não se resume à troca da fonte de energia. Pode envolver decisões relacionadas a processos produtivos, frotas, edifícios, logística, desenho de produtos, circularidade, fornecedores e investimentos.
Entre as frentes que merecem atenção estão:
- Eficiência energética em operações e instalações;
- Uso e contratação de fontes renováveis quando viável;
- Eletrificação de processos e frotas;
- Redução de perdas e desperdícios;
- Inovação em materiais e processos;
- Engajamento da cadeia para gestão de emissões indiretas;
- Avaliação da viabilidade técnica, econômica e socioambiental de soluções de transição.
A descarbonização precisa ser planejada com responsabilidade. Metas devem ser acompanhadas por planos de implementação, investimentos, indicadores e mecanismos de governança.
6. A cadeia de valor se torna prioridade para a gestão ESG
Uma parte relevante dos riscos e impactos de uma empresa pode estar fora de suas operações diretas, distribuída entre fornecedores, prestadores de serviço, transportadoras, distribuidores e produtores de matérias-primas.
Por isso, a gestão da cadeia de valor é uma das agendas mais estratégicas para empresas que desejam avançar em sustentabilidade.
O trabalho pode incluir:
- Mapeamento de fornecedores e categorias críticas;
- Matriz de risco socioambiental;
- Critérios ESG para homologação, contratação e avaliação;
- Código de conduta para fornecedores;
- Ações de rastreabilidade;
- Cláusulas contratuais e mecanismos de acompanhamento;
- Capacitação e desenvolvimento de fornecedores;
- Gestão de riscos relacionados a direitos humanos, trabalho decente, clima, biodiversidade, integridade e condições de trabalho.
A construção de uma cadeia de valor mais sustentável não depende apenas de exigências. Ela requer diálogo, colaboração e entendimento sobre o nível de maturidade dos parceiros.
A empresa deve exercer sua influência de maneira proporcional à criticidade dos riscos, à natureza da relação comercial e à sua capacidade de gerar transformação positiva.
7. Inteligência artificial, dados e cibersegurança passam a integrar a governança ESG
A expansão da inteligência artificial e da digitalização cria oportunidades para melhorar processos, análises, rastreabilidade e tomada de decisão. Por outro lado, também amplia preocupações relacionadas à proteção de dados, cibersegurança, vieses algorítmicos, ética, direitos humanos e consumo de recursos.
A agenda ESG pode contribuir para que a adoção de tecnologias seja acompanhada por princípios de responsabilidade e governança.
As organizações precisam refletir sobre questões como:
- Quais dados são utilizados e como são protegidos?
- Como decisões automatizadas podem afetar pessoas e públicos vulneráveis?
- Existem mecanismos para identificar vieses e riscos éticos?
- Quem responde pela governança de ferramentas de inteligência artificial?
- Como a empresa avalia impactos relacionados à infraestrutura digital e ao consumo de energia?
- Há transparência suficiente sobre o uso da tecnologia em processos que afetam pessoas?
Tecnologia e sustentabilidade não devem ser tratadas como agendas separadas. A inovação gera mais valor quando está conectada a princípios de ética, transparência, segurança e responsabilidade.
Como transformar tendências ESG em ação?
Tendências só se tornam relevantes quando ajudam a organização a tomar melhores decisões. Em vez de tentar responder a todos os temas ao mesmo tempo, a empresa pode estruturar uma jornada gradual e conectada à sua realidade.
Um caminho possível envolve:
- Realizar um diagnóstico de maturidade ESG para compreender práticas, lacunas e oportunidades;
- Identificar riscos, impactos e oportunidades materiais para o negócio e suas partes interessadas;
- Definir prioridades estratégicas, considerando setor, cadeia de valor, território e modelo de negócio;
- Estabelecer uma governança clara, com responsabilidades, fóruns de decisão e participação da liderança;
- Traduzir compromissos em planos de ação, metas, indicadores e responsáveis;
- Integrar ESG a áreas-chave, como Finanças, Riscos, Suprimentos, RH, Operações, Jurídico, Compliance e Comunicação;
- Engajar colaboradores, fornecedores e demais partes interessadas;
- Monitorar, aprender e comunicar a evolução da jornada com transparência.
Sustentabilidade não é uma solução pronta ou um conjunto de tendências a ser seguido de forma superficial. É uma agenda de transformação que demanda escuta, estratégia, profundidade técnica, consistência e capacidade de implementação.
A Em Roda apoia organizações na construção de jornadas ESG customizadas, conectando diagnóstico, estratégia, governança, cadeia de valor, aprendizagem, engajamento de partes interessadas e relato de sustentabilidade.
Sua empresa quer transformar tendências ESG em uma agenda estratégica, consistente e aplicável ao negócio? Vamos conversar.
Leia também
- Qual a maturidade da sua empresa na agenda ESG?
- O novo papel do relato ESG: estratégia, risco e geração de valor
- Cadeias de suprimentos: a nova fronteira da sustentabilidade corporativa
- Compras sustentáveis: como integrar ESG às decisões de aquisição
- Accountability: o que é e quais são seus princípios na gestão ESG
FAQ
Quais são as principais tendências de sustentabilidade e ESG para empresas?
Entre as tendências mais relevantes estão a gestão de riscos climáticos, biodiversidade, transparência de dados, relato ESG, descarbonização, transição energética, gestão sustentável da cadeia de valor e governança da inteligência artificial.
Por que as mudanças climáticas são um risco para as empresas?
Eventos climáticos extremos podem afetar operações, infraestrutura, fornecedores, disponibilidade de recursos naturais, custos logísticos e continuidade do negócio. Por isso, riscos climáticos precisam ser avaliados e incorporados à estratégia empresarial.
Qual é a relação entre biodiversidade e estratégia ESG?
As empresas dependem de recursos e serviços ecossistêmicos, como água, solo e matérias-primas. A perda de biodiversidade pode criar riscos para operações e cadeias de valor, tornando necessária a avaliação de dependências, impactos e oportunidades relacionados à natureza.
Como evitar greenwashing na comunicação ESG?
A empresa deve basear sua comunicação em dados verificáveis, metas contextualizadas, escopo claro, indicadores, resultados e transparência sobre desafios. Compromissos genéricos ou não comprovados podem comprometer a credibilidade da organização.
Como começar a integrar ESG à estratégia empresarial?
O primeiro passo é realizar um diagnóstico de maturidade ESG, identificar riscos, impactos e oportunidades materiais, definir prioridades e estabelecer uma governança clara. A partir disso, a empresa pode criar planos de ação, indicadores e processos de acompanhamento.




