Índice de Transparência da Moda: por que a divulgação de dados é decisiva para transformar o setor

7 dez, 2022

A indústria da moda reúne desafios socioambientais complexos e distribuídos por uma cadeia de valor extensa. Da produção de matérias-primas à confecção, logística, comercialização e fim de vida das peças, decisões empresariais podem afetar pessoas, territórios, recursos naturais, clima e biodiversidade.

Nesse contexto, a transparência corporativa é uma condição essencial para ampliar a capacidade de identificar riscos, prestar contas, promover melhorias e construir relações mais responsáveis ao longo da cadeia de fornecimento.

O Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB), desenvolvido pelo Fashion Revolution Brasil, analisa o nível de divulgação pública de informações sociais e ambientais de grandes marcas e varejistas que atuam no país. A ferramenta não avalia se uma empresa é, por si só, sustentável, nem deve ser usada como um guia de consumo. Seu foco é verificar a disponibilidade de informações públicas, confiáveis, detalhadas e comparáveis sobre políticas, práticas e impactos.

Em sua edição de 2022, o Índice analisou 60 grandes marcas e varejistas brasileiras a partir de mais de 200 indicadores. Entre os temas observados estavam práticas de compra, salário justo, igualdade de gênero e racial, circularidade, clima, biodiversidade, rastreabilidade da cadeia de fornecimento e governança.

Transparência não é sustentabilidade — mas é parte do caminho

Uma empresa pode divulgar políticas e compromissos sem que isso signifique, automaticamente, que seus impactos estão sendo geridos de forma adequada. Da mesma maneira, a ausência de informação pública não comprova, por si só, que uma marca não tenha iniciativas internas.

Ainda assim, a transparência é fundamental.

Sem acesso a informações claras, partes interessadas — como trabalhadores, fornecedores, investidores, consumidores, organizações da sociedade civil, imprensa, governos e comunidades — têm menos condições de compreender como as empresas atuam, questionar lacunas e contribuir para a prevenção ou remediação de impactos negativos.

A transparência corporativa fortalece a prestação de contas. Ela permite que compromissos públicos sejam confrontados com evidências, metas, indicadores, responsabilidades e resultados.

Na moda, isso é especialmente relevante porque muitos riscos sociais e ambientais estão localizados além das operações diretas das marcas, em diferentes níveis da cadeia de fornecimento.

O que o Índice de Transparência da Moda avalia?

O Índice organiza sua análise em temas que ajudam a entender como as marcas comunicam a gestão de sua cadeia de valor. Entre eles, destacam-se:

  • Políticas e compromissos: divulgação de princípios, diretrizes e compromissos públicos relacionados a direitos humanos, meio ambiente, diversidade, ética e sustentabilidade;
  • Governança: informações sobre responsabilidades, liderança, metas, mecanismos de acompanhamento e integração dos temas socioambientais à gestão;
  • Rastreabilidade: publicação de dados sobre fornecedores, unidades produtivas, matérias-primas e diferentes etapas da cadeia;
  • Conhecer, comunicar e resolver: identificação de riscos, mecanismos de escuta, canais de denúncia, tratamento de impactos e comunicação de resultados;
  • Tópicos em destaque: divulgação de informações sobre temas materiais, como práticas de compra, remuneração digna, igualdade racial e de gênero, circularidade, clima e biodiversidade.

A análise considera informações disponibilizadas publicamente pelas empresas. Portanto, o Índice não mede práticas que não estejam acessíveis ao público no período da pesquisa.

Essa distinção é importante: transparência não substitui gestão, diligência ou transformação operacional. Porém, sem transparência, é mais difícil avaliar a consistência entre o que a empresa declara e o que ela efetivamente realiza.

O que revelou a edição de 2022 do ITMB?

A quinta edição do Índice de Transparência da Moda Brasil evidenciou desafios relevantes para o setor. Conforme divulgado pelo Fashion Revolution Brasil, a pontuação média das 60 marcas e varejistas analisadas foi de 17%.

O levantamento também revelou uma lacuna expressiva em rastreabilidade: 67% das empresas avaliadas não divulgaram informações sobre suas listas de fornecedores.

Além disso, nenhuma das 60 marcas analisadas divulgava, naquele momento, compromissos públicos, mensuráveis e com prazo definido para desmatamento zero. O resultado chama atenção para a necessidade de avançar na conexão entre a indústria da moda, a proteção da biodiversidade, o uso da terra e a origem das matérias-primas.

Os dados reforçam uma tendência importante: as empresas costumam divulgar com mais frequência suas políticas e compromissos do que resultados, impactos e informações sobre os elos mais profundos da cadeia de fornecimento.

Essa diferença entre intenção declarada e evidência disponível é um dos principais desafios para organizações que desejam fortalecer sua credibilidade ESG.

Rastreabilidade: conhecer a cadeia para gerenciar riscos e impactos

A rastreabilidade é uma das dimensões mais críticas para a sustentabilidade na moda. Ela permite que marcas e varejistas conheçam melhor a origem de seus produtos, identifiquem riscos socioambientais e estabeleçam relações mais responsáveis com fornecedores.

Sem visibilidade sobre a cadeia, torna-se mais difícil prevenir ou responder adequadamente a situações como:

  • Violações de direitos humanos e condições precárias de trabalho;
  • Trabalho infantil, trabalho forçado ou análogo à escravidão;
  • Riscos à saúde e segurança de trabalhadores;
  • Uso inadequado de recursos naturais;
  • Contaminação, poluição e descarte inadequado de resíduos;
  • Perda de biodiversidade e riscos associados ao desmatamento;
  • Emissões de gases de efeito estufa em diferentes etapas produtivas;
  • Falhas de integridade, conformidade e governança;
  • Fragilidades na origem de fibras, tecidos, couro, aviamentos e demais matérias-primas.

Conhecer os fornecedores de primeiro nível é apenas um começo. Uma gestão mais madura busca ampliar gradualmente a compreensão sobre os demais elos da cadeia, especialmente aqueles relacionados a materiais e matérias-primas.

A edição de 2025 do ITMB reforça esse desafio. Segundo os dados publicados pelo Índice de Transparência da Moda Brasil 2025, 42% das marcas avaliadas divulgavam informações sobre fornecedores de confecção, enquanto 23% apresentavam informações relacionadas a fornecedores de matérias-primas. O dado evidencia que a transparência tende a diminuir à medida que se avança para os níveis mais profundos da cadeia.

Transparência exige dados, governança e consistência

Publicar informações relevantes não é apenas uma atividade de comunicação. Para que a transparência seja consistente, a empresa precisa desenvolver capacidades internas para coletar, validar, analisar e reportar dados.

Isso envolve integração entre diferentes áreas, como Sustentabilidade, Suprimentos, Operações, Compliance, Jurídico, Recursos Humanos, Comunicação, Riscos, Auditoria e alta liderança.

Uma agenda de transparência mais robusta demanda:

1. Governança clara

A empresa precisa definir quem responde pelos temas ESG, como as decisões são tomadas, quais instâncias acompanham riscos e resultados e como a alta liderança participa da supervisão da agenda.

2. Materialidade e priorização

Nem todos os temas terão a mesma relevância para todas as organizações. A empresa precisa identificar impactos, riscos e oportunidades mais materiais em seu modelo de negócio, em sua cadeia e nos territórios onde atua.

3. Rastreabilidade progressiva

O mapeamento da cadeia deve ser construído de forma gradual, priorizando fornecedores, categorias, materiais e territórios mais críticos para o negócio e para os impactos socioambientais.

4. Critérios ESG para fornecedores

A seleção, homologação, contratação e avaliação de fornecedores podem incluir critérios relacionados a direitos humanos, práticas de trabalho, integridade, gestão ambiental, clima, biodiversidade, saúde e segurança, diversidade e rastreabilidade.

5. Indicadores e evidências

A divulgação de compromissos ganha consistência quando acompanhada de metas, indicadores, prazos, escopo, metodologia, resultados e limitações. Uma comunicação responsável inclui avanços, desafios e pontos que ainda precisam ser aprimorados.

6. Diálogo e mecanismos de escuta

Canais de diálogo e reporte são fundamentais para que trabalhadores, fornecedores, comunidades e outras partes interessadas possam comunicar preocupações e contribuir para a identificação de riscos e oportunidades de melhoria.

Da divulgação à transformação da cadeia de valor

O Índice de Transparência da Moda mostra que o setor precisa avançar não apenas na comunicação de compromissos, mas também na demonstração de resultados e na ampliação da visibilidade sobre sua cadeia de valor.

Para marcas e varejistas, isso significa incorporar sustentabilidade às decisões que estruturam o negócio: desenvolvimento de produtos, escolha de materiais, práticas de compra, relacionamento com fornecedores, gestão de contratos, logística, estratégias climáticas e processos de relato.

A transparência deve ser entendida como uma ferramenta de transformação. Quando informações de qualidade são disponibilizadas, diferentes públicos podem acompanhar compromissos, identificar lacunas, incentivar boas práticas e ampliar a colaboração em torno de desafios comuns.

O objetivo não é construir uma imagem perfeita. É criar condições para que riscos sejam reconhecidos, responsabilidades sejam assumidas e melhorias sejam conduzidas com consistência.

Como avançar na transparência e na sustentabilidade na moda?

Empresas do setor podem iniciar ou fortalecer sua jornada por meio de uma abordagem estruturada:

  1. Realizar um diagnóstico de maturidade ESG, incluindo práticas de compras, fornecedores, governança, dados e comunicação;
  2. Mapear a cadeia de valor, priorizando categorias, territórios, fornecedores e matérias-primas mais relevantes;
  3. Identificar riscos e impactos materiais, com atenção a direitos humanos, clima, biodiversidade, resíduos, circularidade e condições de trabalho;
  4. Definir compromissos, políticas e responsabilidades que sejam coerentes com a realidade da operação;
  5. Estruturar critérios ESG para a gestão de fornecedores, considerando proporcionalidade, evidências e planos de melhoria;
  6. Criar indicadores e processos de monitoramento para acompanhar avanços e lacunas;
  7. Desenvolver uma estratégia de relato e comunicação responsável, baseada em informações verificáveis, comparáveis e contextualizadas;
  8. Engajar fornecedores e partes interessadas, reconhecendo que a transformação da cadeia depende de colaboração.

A sustentabilidade na moda não se resolve com uma ação isolada. Ela exige visão sistêmica, governança, dados, diálogo e compromisso contínuo com a melhoria das relações e dos impactos ao longo da cadeia.

A Em Roda Estratégia e Sustentabilidade apoia organizações na construção de jornadas ESG customizadas, incluindo diagnóstico de maturidade, estratégia de sustentabilidade, gestão de riscos socioambientais, cadeia de valor, compras sustentáveis, engajamento de fornecedores e relatórios de sustentabilidade.

Sua organização busca fortalecer a transparência, a rastreabilidade e a gestão ESG em sua cadeia de valor? Vamos conversar.

Leia também

FAQ

O que é o Índice de Transparência da Moda?

O Índice de Transparência da Moda é uma pesquisa que analisa o nível de divulgação pública de informações sociais e ambientais por grandes marcas e varejistas de moda. Ele avalia a disponibilidade de dados sobre políticas, práticas, governança, rastreabilidade, impactos e temas específicos do setor.

O Índice de Transparência da Moda avalia quais marcas são sustentáveis?

Não. O Índice avalia a transparência das informações públicas disponibilizadas pelas marcas no período analisado. Uma pontuação mais alta indica maior divulgação de informações, e não uma avaliação definitiva sobre a sustentabilidade ou o desempenho socioambiental de uma empresa.

Por que a rastreabilidade é importante para a indústria da moda?

A rastreabilidade permite conhecer os fornecedores, materiais e etapas que compõem a cadeia de valor. Esse conhecimento ajuda empresas a identificar e gerir riscos relacionados a direitos humanos, condições de trabalho, clima, biodiversidade, integridade e origem de matérias-primas.

Transparência é suficiente para tornar uma empresa sustentável?

Não. Transparência é uma ferramenta de prestação de contas e transformação, mas precisa estar acompanhada de estratégia, governança, gestão de riscos, metas, indicadores, diálogo com partes interessadas e ações concretas de melhoria.

Como uma empresa de moda pode melhorar sua transparência ESG?

A empresa pode começar mapeando sua cadeia de valor, identificando temas materiais, definindo responsabilidades de governança, estabelecendo critérios ESG para fornecedores, estruturando indicadores e divulgando informações verificáveis sobre compromissos, avanços, desafios e resultados.

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