Trabalho decente: o que é e como as empresas podem promovê-lo

7 dez, 2022

O trabalho decente é uma agenda central para o desenvolvimento sustentável e para a gestão responsável das empresas. Ele diz respeito à possibilidade de todas as pessoas exercerem atividades profissionais em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade.

Embora o tema esteja frequentemente associado às políticas de recursos humanos, seu alcance é mais amplo. A promoção do trabalho decente envolve a cultura organizacional, as práticas de gestão, a atuação das lideranças, a governança, o relacionamento com comunidades e, de forma especialmente relevante, a cadeia de valor.

Para as empresas, essa é uma agenda que conecta direitos humanos, gestão de riscos, atração e desenvolvimento de talentos, reputação, continuidade operacional e criação de valor no longo prazo.

O que é trabalho decente?

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), trabalho decente é aquele adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna às pessoas trabalhadoras e suas famílias.

O conceito reúne dimensões que precisam ser consideradas de forma integrada, tais como:

  • Oportunidades de emprego produtivo e de qualidade;
  • Remuneração justa;
  • Condições adequadas de saúde e segurança;
  • Proteção social e respeito aos direitos trabalhistas;
  • Igualdade de oportunidades e de tratamento;
  • Combate à discriminação;
  • Liberdade de associação e diálogo social;
  • Prevenção ao trabalho infantil, ao trabalho forçado e a outras formas de exploração;
  • Possibilidades de qualificação, aprendizagem e desenvolvimento profissional.

A agenda também está relacionada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8), que propõe promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho decente para todas as pessoas.

Por que o trabalho decente é relevante para a agenda ESG?

Na agenda ESG, o trabalho decente está diretamente ligado à dimensão social, mas sua influência alcança a estratégia, a governança e a gestão de riscos da empresa.

Práticas inadequadas de trabalho podem gerar impactos relevantes sobre pessoas e comunidades, além de expor organizações a riscos operacionais, reputacionais e de relacionamento com clientes, investidores, parceiros e demais stakeholders.

Por outro lado, relações de trabalho mais justas, seguras e inclusivas contribuem para ambientes organizacionais mais saudáveis, para o engajamento das equipes e para relações de confiança ao longo da cadeia de valor.

Promover trabalho decente exige olhar tanto para dentro quanto para fora da organização:

  • Dentro da empresa: condições de trabalho, saúde e segurança, remuneração, diversidade, inclusão, desenvolvimento de pessoas, canais de escuta e prevenção de discriminação.
  • Na cadeia de valor: riscos associados a fornecedores, prestadores de serviços, matérias-primas e territórios em que a organização opera ou se relaciona.

Quais são os principais pilares do trabalho decente?

Uma agenda de trabalho decente precisa considerar diferentes dimensões. A relevância e a prioridade de cada uma variam conforme o setor, o porte, o modelo de negócio, o território e os riscos da empresa.

Igualdade de oportunidades e combate à discriminação

Promover trabalho decente pressupõe garantir que as pessoas tenham acesso a oportunidades de emprego, desenvolvimento e reconhecimento sem discriminação.

Isso envolve prevenir práticas discriminatórias relacionadas, entre outros aspectos, a gênero, raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, religião, origem social ou outras características pessoais.

Algumas frentes relevantes para as empresas incluem:

  • Processos de recrutamento e seleção mais inclusivos;
  • Critérios claros para promoção, desenvolvimento e remuneração;
  • Prevenção e tratamento de discriminação, assédio e violência;
  • Programas de diversidade, equidade e inclusão conectados à cultura e à gestão;
  • Canais de denúncia e acolhimento com confidencialidade e tratamento adequado;
  • Monitoramento de dados para identificar possíveis desigualdades.

Mais do que estabelecer compromissos institucionais, é importante criar condições para que esses princípios estejam presentes nas decisões e relações cotidianas de trabalho.

Remuneração justa e redução de desigualdades

A remuneração é um componente essencial da dignidade no trabalho. Empresas podem avaliar suas práticas de pagamento, benefícios e reconhecimento para identificar disparidades e aprimorar a equidade de seus processos.

Essa análise pode considerar, por exemplo:

  • Critérios de remuneração e progressão de carreira;
  • Diferenças salariais entre grupos;
  • Transparência e consistência das políticas de remuneração;
  • Condições de contratação;
  • Benefícios e mecanismos de proteção social;
  • Compatibilidade entre responsabilidades, jornada, remuneração e condições de trabalho.

A redução de desigualdades salariais e a promoção de relações mais justas exigem dados, governança e disposição para transformar processos quando forem identificadas lacunas.

Saúde, segurança e bem-estar

Ambientes de trabalho seguros são uma condição fundamental para o trabalho decente. A empresa deve identificar e gerenciar riscos relacionados à saúde e à segurança de acordo com suas atividades, seus processos e sua força de trabalho.

Essa agenda pode abranger:

  • Prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho;
  • Gestão de riscos físicos, químicos, ergonômicos e psicossociais;
  • Treinamentos e comunicação sobre práticas seguras;
  • Mecanismos de prevenção, resposta e aprendizagem diante de ocorrências;
  • Promoção de respeito, diálogo e segurança psicológica;
  • Atenção à sobrecarga, às relações de trabalho e ao bem-estar das pessoas.

A segurança psicológica também merece atenção. Equipes precisam ter condições para se expressar, fazer perguntas, relatar preocupações e contribuir com ideias sem medo de represálias ou constrangimentos.

Desenvolvimento, aprendizagem e empregabilidade

O trabalho decente também envolve oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento ao longo da trajetória profissional.

Em um contexto de transformação tecnológica, mudanças climáticas e novas exigências de mercado, as empresas têm papel relevante na preparação de suas equipes para novas competências, funções e desafios.

Algumas iniciativas possíveis são:

  • Programas de capacitação técnica e comportamental;
  • Planos de desenvolvimento;
  • Formação de lideranças;
  • Iniciativas de aprendizagem contínua;
  • Ações para apoiar transições profissionais;
  • Desenvolvimento de competências relacionadas à sustentabilidade e à gestão responsável;
  • Parcerias para ampliar acesso à formação e à inclusão produtiva.

A qualificação das pessoas deve ser compreendida como parte da capacidade de adaptação e resiliência da própria organização.

Diálogo social e respeito aos direitos trabalhistas

O diálogo social é outro elemento importante do trabalho decente. Ele envolve a existência de canais legítimos de escuta, participação e negociação sobre condições de trabalho e temas que afetam as pessoas trabalhadoras.

As empresas podem fortalecer esse aspecto ao:

  • Respeitar a liberdade de associação;
  • Reconhecer mecanismos de representação dos trabalhadores;
  • Promover diálogo transparente sobre temas relevantes;
  • Criar canais de escuta acessíveis;
  • Estabelecer processos de resposta a dúvidas, conflitos e denúncias;
  • Considerar a negociação coletiva quando aplicável;
  • Garantir o respeito aos direitos trabalhistas e às condições estabelecidas nas relações de trabalho.

Uma cultura de diálogo contribui para identificar riscos, prevenir conflitos e aprimorar decisões relacionadas à gestão de pessoas.

Trabalho decente na cadeia de valor: onde estão os maiores desafios?

A responsabilidade empresarial não termina nos limites das operações próprias. Em muitas cadeias de valor, riscos sociais relevantes podem estar presentes entre fornecedores, prestadores de serviços, produtores de matérias-primas e parceiros comerciais.

Temas como trabalho infantil, trabalho forçado, trabalho em condições degradantes, jornadas excessivas, riscos à saúde e segurança, discriminação e informalidade exigem atenção proporcional ao contexto de cada cadeia.

Isso não significa que uma empresa consiga controlar integralmente todas as relações presentes em sua cadeia. Significa reconhecer riscos, definir prioridades e exercer influência de forma responsável, especialmente nos elos e categorias mais críticos.

Como avaliar riscos sociais na cadeia de fornecedores?

O primeiro passo é compreender quais categorias de compra, territórios, produtos, serviços ou perfis de fornecedor apresentam maior exposição a riscos sociais.

Uma avaliação de riscos pode considerar:

  • Tipo de produto ou serviço contratado;
  • Características da mão de obra envolvida;
  • Localização das operações;
  • Grau de terceirização e subcontratação;
  • Origem de matérias-primas;
  • Histórico de ocorrências ou não conformidades;
  • Criticidade do fornecedor para o negócio;
  • Capacidade de influência e relacionamento da empresa contratante;
  • Exigências de clientes, mercados e demais stakeholders.

A partir dessa análise, a empresa pode priorizar fornecedores e categorias para processos mais aprofundados de avaliação, diálogo e desenvolvimento.

Como engajar fornecedores na promoção do trabalho decente?

A gestão sustentável de fornecedores não deve se limitar à imposição de requisitos. Embora critérios claros sejam necessários, a construção de uma cadeia mais responsável também depende de orientação, escuta, colaboração e desenvolvimento.

Entre as ações que podem apoiar esse processo estão:

  • Estabelecer um código de conduta para fornecedores;
  • Incluir cláusulas socioambientais e de direitos humanos em contratos, quando adequadas;
  • Realizar processos de avaliação proporcionais ao risco;
  • Solicitar evidências e informações relevantes;
  • Promover capacitações e materiais de orientação;
  • Realizar reuniões, visitas técnicas ou auditorias quando pertinentes;
  • Criar planos de ação para tratar lacunas identificadas;
  • Oferecer devolutivas claras aos fornecedores;
  • Reconhecer avanços e boas práticas;
  • Definir protocolos para situações graves de não conformidade.

A abordagem deve ser coerente com o porte, a capacidade e o contexto dos fornecedores. Exigências inviáveis ou padronizadas para todos os parceiros tendem a gerar baixa qualidade das respostas e pouco avanço real.

Como as empresas podem promover trabalho decente na prática?

A promoção do trabalho decente precisa estar conectada à estratégia, à governança e aos processos de gestão. Algumas medidas que podem fazer parte dessa jornada incluem:

  1. Realizar um diagnóstico de riscos e práticas existentes
    Mapear políticas, processos, dados e lacunas relacionados às relações de trabalho, direitos humanos, diversidade, saúde e segurança e cadeia de valor.
  2. Definir temas prioritários
    Identificar quais riscos e oportunidades exigem maior atenção, considerando o setor, as características da força de trabalho, as operações e a cadeia de fornecedores.
  3. Fortalecer políticas e diretrizes
    Estabelecer princípios claros sobre direitos humanos, não discriminação, saúde e segurança, ética e conduta esperada nas relações de trabalho e comerciais.
  4. Estruturar responsabilidades e governança
    Definir papéis de lideranças, recursos humanos, sustentabilidade, suprimentos, compliance, riscos e demais áreas envolvidas.
  5. Capacitar lideranças e equipes
    Criar oportunidades de aprendizagem sobre direitos humanos, diversidade, respeito, prevenção de assédio, segurança e práticas responsáveis na cadeia de valor.
  6. Incorporar critérios sociais na gestão de fornecedores
    Considerar riscos sociais na seleção, avaliação, contratação, monitoramento e desenvolvimento de parceiros.
  7. Criar mecanismos de escuta e resposta
    Manter canais acessíveis para dúvidas, denúncias, sugestões e diálogo com pessoas trabalhadoras e outros públicos relevantes.
  8. Acompanhar indicadores e planos de ação
    Definir métricas úteis para a gestão e revisar periodicamente os resultados, desafios e prioridades.
  9. Comunicar com transparência
    Divulgar compromissos, avanços e desafios de forma responsável, evitando mensagens genéricas ou afirmações que não possam ser sustentadas por evidências.

Indicadores que podem apoiar a gestão

Os indicadores devem refletir os temas prioritários e a disponibilidade de informações da empresa. Eles não devem ser usados apenas para comunicação, mas como instrumentos de acompanhamento e tomada de decisão.

Alguns exemplos são:

  • Taxa de acidentes e ocorrências de saúde e segurança;
  • Cobertura de treinamentos relacionados a saúde, segurança, diversidade, direitos humanos e conduta;
  • Distribuição da força de trabalho e da liderança por grupos acompanhados pela empresa;
  • Diferenças de remuneração analisadas conforme critérios internos relevantes;
  • Número e tratamento de relatos recebidos em canais de escuta;
  • Cobertura de avaliações de risco social na cadeia de fornecedores;
  • Percentual de fornecedores prioritários que aderiram ao código de conduta;
  • Número de fornecedores capacitados;
  • Planos de ação sociais em andamento e concluídos;
  • Indicadores de desenvolvimento, retenção e engajamento de pessoas.

A definição dos indicadores precisa ser acompanhada de responsabilidades claras, fontes de dados, periodicidade de acompanhamento e critérios para orientar melhorias.

Trabalho decente como parte de uma jornada ESG consistente

Promover trabalho decente não é uma ação isolada nem uma responsabilidade exclusiva da área de recursos humanos. É uma agenda transversal, que exige participação da liderança e conexão entre gestão de pessoas, sustentabilidade, suprimentos, riscos, compliance, operações e governança.

O caminho começa com o reconhecimento de que as relações de trabalho e os direitos humanos são temas estratégicos para o negócio e para a sociedade. A partir de um diagnóstico consistente, cada organização pode construir prioridades e avançar de forma gradual, respeitando seu contexto e ampliando sua capacidade de gerar valor para as pessoas e para os territórios com os quais se relaciona.

A Em Roda apoia empresas na estruturação de estratégias ESG, diagnósticos de maturidade, integração de direitos humanos e sustentabilidade à cadeia de valor, capacitação de lideranças e equipes e construção de processos de governança e transparência.

Sua empresa quer fortalecer a agenda de trabalho decente e direitos humanos em suas operações e cadeia de valor? Vamos conversar.

Leia também

FAQ

O que é trabalho decente?

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, trabalho decente é aquele adequadamente remunerado e realizado em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna às pessoas trabalhadoras e suas famílias.

Qual é a relação entre trabalho decente e ESG?

O trabalho decente está relacionado principalmente à dimensão social do ESG. Ele envolve direitos humanos, condições de trabalho, saúde e segurança, diversidade, remuneração justa, diálogo social e gestão de riscos na cadeia de valor.

Como as empresas podem promover trabalho decente?

As empresas podem começar com um diagnóstico de práticas e riscos, definição de prioridades, fortalecimento de políticas, capacitação de lideranças, mecanismos de escuta, acompanhamento de indicadores e integração de critérios sociais à gestão de fornecedores.

Por que a cadeia de fornecedores é relevante para o trabalho decente?

Riscos relacionados a condições precárias de trabalho, trabalho infantil, trabalho forçado, discriminação e saúde e segurança podem estar presentes em diferentes etapas da cadeia de valor. Por isso, empresas devem mapear, priorizar, engajar e desenvolver fornecedores de forma proporcional aos riscos identificados.

Trabalho decente é responsabilidade apenas da área de recursos humanos?

Não. A agenda exige uma atuação transversal, envolvendo liderança, recursos humanos, sustentabilidade, suprimentos, riscos, compliance, operações e demais áreas relacionadas às decisões e relações de negócio.


Referências sugeridas

  • Organização Internacional do Trabalho (OIT). Agenda de Trabalho Decente.
  • Nações Unidas. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8: Trabalho decente e crescimento econômico.
  • Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos.

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