Os caminhos da padronização ESG: como empresas podem se preparar para um cenário de maior transparência

12 jul, 2021

A padronização das informações ESG vem transformando a forma como empresas avaliam, gerenciam e comunicam seus riscos, impactos e oportunidades relacionados à sustentabilidade.

Por muitos anos, organizações utilizaram diferentes referências para relatar suas práticas ambientais, sociais e de governança. Essa diversidade ajudou a ampliar o debate sobre sustentabilidade corporativa, mas também trouxe desafios: indicadores pouco comparáveis, escopos distintos, excesso de informações desconectadas da estratégia e dificuldade para investidores, clientes e demais partes interessadas avaliarem a consistência dos dados divulgados.

O movimento atual aponta para maior convergência. Não se trata de criar uma única resposta para todas as empresas, mas de tornar as informações mais úteis, comparáveis, consistentes e conectadas à tomada de decisão.

Para organizações que desejam fortalecer sua jornada ESG, a questão central não é apenas qual padrão utilizar. É desenvolver uma estrutura de gestão capaz de produzir dados confiáveis, identificar temas materiais, integrar riscos à estratégia e comunicar avanços com transparência.

Por que a padronização ESG se tornou uma agenda estratégica?

A sustentabilidade passou a ser observada por diferentes públicos: investidores, instituições financeiras, clientes corporativos, consumidores, fornecedores, órgãos reguladores, colaboradores, comunidades e sociedade civil.

Cada público pode ter expectativas específicas. Ainda assim, todos demandam maior clareza sobre como a organização:

  • Identifica e gerencia riscos socioambientais e climáticos;
  • Avalia os impactos de suas operações e de sua cadeia de valor;
  • Define responsabilidades de governança;
  • Estabelece metas e acompanha indicadores;
  • Trata temas como emissões, direitos humanos, diversidade, ética, biodiversidade e uso de recursos naturais;
  • Comunica desafios, compromissos e resultados.

A padronização busca responder a essa demanda por qualidade da informação. Ela contribui para que o relato de sustentabilidade deixe de ser exclusivamente uma peça de comunicação e se torne parte de uma arquitetura mais ampla de governança, gestão de riscos e criação de valor no longo prazo.

O que significa padronizar informações ESG?

Padronizar não significa reduzir a sustentabilidade a uma lista fixa de indicadores ou ignorar as particularidades de cada negócio.

Significa construir critérios comuns para que informações relevantes possam ser compreendidas, comparadas e utilizadas por diferentes partes interessadas.

Na prática, uma estrutura de reporte ESG mais consistente costuma envolver:

  • Definição de temas materiais para o negócio e seus stakeholders;
  • Governança e responsabilidades claras;
  • Processos de coleta, validação e consolidação de dados;
  • Indicadores, métricas, metas e prazos;
  • Critérios metodológicos transparentes;
  • Conexão entre sustentabilidade, estratégia, riscos e desempenho;
  • Comunicação equilibrada sobre avanços, lacunas e desafios.

A qualidade do relato depende da qualidade da gestão. Por isso, antes de publicar um relatório, é fundamental que a empresa compreenda quais temas são prioritários, quais dados possui, onde estão suas lacunas e como a liderança acompanha a agenda.

GRI, ISSB, IFRS S1 e S2, SASB e ESRS: como entender os principais padrões?

O cenário de relatos de sustentabilidade reúne diferentes referências. Elas não devem ser vistas necessariamente como concorrentes, pois podem atender a finalidades complementares.

GRI: foco nos impactos sobre economia, meio ambiente e pessoas

Os padrões da Global Reporting Initiative (GRI) orientam empresas a reportar seus impactos mais relevantes sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas.

Sua abordagem considera uma visão ampla de stakeholders, incluindo colaboradores, comunidades, clientes, fornecedores, investidores, organizações da sociedade civil e outros públicos afetados ou interessados nas atividades da empresa.

O GRI pode ser especialmente relevante para organizações que desejam comunicar sua gestão de impactos, seus temas materiais e sua contribuição — positiva ou negativa — para os territórios e públicos com os quais se relacionam.

ISSB e IFRS S1 e S2: foco em sustentabilidade e clima sob a perspectiva financeira

As normas IFRS S1 e IFRS S2, emitidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), têm foco na divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade que possam afetar as perspectivas financeiras da empresa.

A IFRS S1 trata de riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade de forma geral. Já a IFRS S2 concentra-se em divulgações relacionadas ao clima, incluindo governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas.

No Brasil, os equivalentes aos padrões internacionais foram emitidos como CBPS 01 e CBPS 02, respectivamente. Conforme informações do perfil do Brasil publicado pela IFRS Foundation, o país internalizou essas referências no ambiente regulatório e de mercado.

A aplicação das normas deve ser analisada conforme o perfil, o setor, a estrutura de governança e as obrigações aplicáveis a cada organização. Em temas regulatórios e de reporte financeiro, é recomendável a validação com profissionais especializados.

SASB: indicadores setoriais e materialidade financeira

O Sustainability Accounting Standards Board (SASB) desenvolveu padrões voltados à identificação de temas de sustentabilidade financeiramente materiais em diferentes setores.

Sua contribuição está, especialmente, na lógica setorial: empresas de segmentos distintos enfrentam riscos, impactos e oportunidades diferentes. Por isso, os indicadores relevantes para uma instituição financeira não são os mesmos de uma empresa de mineração, varejo, energia, alimentos ou tecnologia.

As referências SASB podem ser úteis como apoio para a seleção de métricas e para o aprofundamento da relação entre sustentabilidade, riscos e desempenho econômico-financeiro.

ESRS: dupla materialidade e exigências do contexto europeu

Os European Sustainability Reporting Standards (ESRS) estão relacionados à Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), da União Europeia.

Esses padrões partem do princípio da dupla materialidade, considerando duas perspectivas complementares:

  1. Materialidade de impacto: como a empresa impacta pessoas, sociedade e meio ambiente;
  2. Materialidade financeira: como temas ambientais, sociais e de governança podem afetar o desempenho, os riscos e as perspectivas da empresa.

Os ESRS não são uma obrigação geral para empresas brasileiras. No entanto, podem se tornar relevantes para organizações com operações, clientes, investidores, subsidiárias ou cadeias de valor conectadas ao mercado europeu.

A convergência não elimina a necessidade de uma estratégia própria

A existência de múltiplos padrões pode parecer complexa, mas também oferece uma oportunidade: construir uma base de dados e gestão que permita responder a diferentes demandas sem duplicar esforços.

Uma empresa que realiza um processo consistente de materialidade, estrutura indicadores, mapeia riscos, define governança e engaja áreas internas cria melhores condições para utilizar diferentes referências de reporte.

Por exemplo:

  • A análise de impactos pode apoiar um relatório alinhado ao GRI;
  • A avaliação de riscos e oportunidades pode fortalecer divulgações relacionadas ao ISSB;
  • Os indicadores setoriais podem ser aprofundados com referências SASB;
  • A dupla materialidade pode preparar empresas expostas a demandas europeias ou globais.

O objetivo não é adotar todos os frameworks simultaneamente. É entender quais referências são mais adequadas à realidade, aos públicos prioritários e às necessidades estratégicas da organização.

O papel da CVM na evolução da transparência ESG

No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tem desempenhado um papel relevante na ampliação das expectativas de transparência sobre temas ESG no mercado de capitais.

A evolução regulatória reforçou a importância de companhias abertas apresentarem informações sobre riscos, práticas de sustentabilidade, governança e critérios utilizados para a divulgação de dados ESG.

A CVM também adotou os pronunciamentos brasileiros alinhados às IFRS S1 e S2. Em 2026, houve uma mudança no cronograma inicialmente previsto para obrigatoriedade de divulgação por parte de companhias abertas, com a adoção dos padrões passando a seguir uma lógica voluntária, observadas as regras aplicáveis. A CVM e a IFRS Foundation disponibilizam informações públicas sobre esse processo.

Mesmo quando a adoção de determinada referência não é obrigatória para uma empresa, as demandas de investidores, clientes, instituições financeiras e cadeias globais continuam estimulando a melhoria da qualidade das informações ESG.

Instituições financeiras: riscos sociais, ambientais e climáticos em foco

Para instituições financeiras, a agenda de riscos sociais, ambientais e climáticos possui uma relevância particular. O setor tem capacidade de influenciar diferentes atividades econômicas por meio de crédito, investimentos, seguros e relacionamento com clientes.

No contexto brasileiro, normas do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central estabeleceram diretrizes para a gestão e divulgação de riscos e oportunidades sociais, ambientais e climáticas.

Entre os instrumentos relevantes está o Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas (GRSAC). A agenda reforça que riscos ESG precisam ser incorporados às estruturas de governança, gestão de riscos, políticas e processos decisórios das instituições.

A evolução das exigências do setor demonstra uma tendência mais ampla: sustentabilidade e risco financeiro estão cada vez mais conectados.

O desafio não está apenas em relatar, mas em gerar informação confiável

Um dos principais obstáculos para a padronização ESG é a qualidade dos dados. Muitas empresas já possuem iniciativas relevantes, mas enfrentam dificuldades para consolidar informações provenientes de diferentes áreas, unidades operacionais e fornecedores.

A estruturação de dados ESG pode exigir colaboração entre áreas como:

  • Sustentabilidade;
  • Finanças;
  • Riscos;
  • Governança;
  • Compliance;
  • Jurídico;
  • Recursos Humanos;
  • Suprimentos;
  • Operações;
  • Tecnologia da Informação;
  • Comunicação Corporativa;
  • Relações com Investidores;
  • Auditoria Interna.

Além disso, uma parcela relevante dos impactos e riscos pode estar na cadeia de valor. Emissões indiretas, condições de trabalho, origem de matérias-primas, direitos humanos, biodiversidade e rastreabilidade são exemplos de temas que podem demandar diálogo e engajamento progressivo de fornecedores.

A empresa não precisa resolver todas as lacunas de uma vez. O mais importante é começar por uma avaliação estruturada, priorizar os temas materiais e construir um plano de evolução proporcional à sua maturidade e ao seu contexto.

Como preparar a empresa para a padronização ESG?

Uma jornada consistente pode seguir alguns passos fundamentais.

1. Avaliar a maturidade ESG atual

Antes de escolher um padrão de reporte, é necessário compreender o ponto de partida da organização. Quais políticas, compromissos, dados, indicadores e processos já existem? Quais áreas participam da agenda? Onde estão as principais lacunas?

Um diagnóstico ajuda a evitar esforços desconectados e a definir prioridades realistas.

2. Identificar temas materiais

A definição de temas materiais orienta a estratégia, o relato e a alocação de recursos. Esse processo deve considerar impactos, riscos e oportunidades relacionados ao negócio, à cadeia de valor e às partes interessadas.

A dupla materialidade pode ser uma abordagem relevante para ampliar essa análise, conectando impactos da organização e efeitos financeiros dos temas ESG.

3. Fortalecer a governança

A governança define como a agenda ESG será acompanhada, quem toma decisões, quais fóruns analisam riscos e oportunidades e como a alta liderança participa da supervisão.

Sem responsabilidades claras, o relato tende a depender de esforços pontuais e perde consistência ao longo do tempo.

4. Estruturar indicadores e processos de dados

É importante selecionar indicadores relevantes, definir responsáveis pela informação, registrar metodologias, estabelecer controles e criar rotinas de atualização.

A empresa deve priorizar a qualidade e a utilidade dos dados, e não apenas o volume de informações divulgadas.

5. Conectar ESG à estratégia e à gestão de riscos

Temas ESG precisam ser considerados nas decisões que moldam o negócio: investimentos, inovação, expansão, gestão de pessoas, compras, produtos, operações e relacionamento com fornecedores.

Essa integração torna a sustentabilidade mais aplicável e fortalece a coerência entre compromissos públicos e decisões internas.

6. Comunicar com transparência

A comunicação deve refletir o estágio real da jornada. Isso inclui apresentar metas, avanços, desafios, limites metodológicos e próximos passos.

Uma comunicação responsável não busca criar uma imagem idealizada. Ela contribui para relações de confiança e para a prestação de contas junto às partes interessadas.

Padronização ESG é uma oportunidade para qualificar a gestão

A convergência de padrões ESG amplia as exigências sobre empresas, mas também oferece uma oportunidade de aprimorar processos, reduzir assimetrias de informação e conectar sustentabilidade à estratégia de longo prazo.

O relato mais consistente começa antes da publicação. Ele nasce da escuta das partes interessadas, da identificação de temas materiais, da qualidade dos dados, da governança e da capacidade de transformar riscos e impactos em decisões mais responsáveis.

A Em Roda Estratégia e Sustentabilidade apoia organizações na construção de jornadas customizadas de sustentabilidade, incluindo diagnóstico ESG, dupla materialidade, estratégia, governança, gestão de cadeia de valor e relatórios de sustentabilidade.

Sua organização deseja estruturar dados, processos e uma estratégia de relato ESG conectada à sua realidade de negócio? Vamos conversar.

Leia também

FAQ

O que é padronização ESG?

Padronização ESG é o uso de referências, métricas e critérios mais consistentes para que empresas divulguem informações sobre temas ambientais, sociais e de governança de forma clara, comparável e útil para diferentes partes interessadas.

Qual é a diferença entre GRI e IFRS S1 e S2?

O GRI tem foco nos impactos da organização sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas, considerando diferentes stakeholders. As IFRS S1 e S2, emitidas pelo ISSB, focam em riscos e oportunidades de sustentabilidade que podem afetar as perspectivas financeiras da empresa, com atenção específica ao clima na IFRS S2.

O que é dupla materialidade?

Dupla materialidade é uma abordagem que considera, ao mesmo tempo, os impactos da empresa sobre pessoas e meio ambiente e os impactos que questões ESG podem gerar sobre o desempenho financeiro, os riscos e a estratégia da organização.

A adoção de IFRS S1 e S2 é obrigatória para todas as empresas brasileiras?

Não. A aplicabilidade depende do perfil da organização, de sua atuação e das regras específicas dos órgãos reguladores. Empresas devem avaliar suas obrigações e demandas de mercado com apoio de profissionais especializados quando necessário.

Como começar a estruturar um relatório ESG?

O primeiro passo é realizar um diagnóstico de maturidade, identificar temas materiais, definir uma governança clara, estruturar indicadores e processos de dados e escolher as referências de reporte adequadas ao contexto da empresa.

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